Crônicas do Cotidiano – Parte 4

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Depois de um cochilo de quinze minutos levanto e olho para a janela semiaberta. O dia ainda está claro. Minha coluna dói um pouco. Estico o corpo, pego a câmera e a mochila e levo para o escritório / quarto de hospedes para guardar. Minha magrela, pendurada na parede, me encara enquanto acondiciono meus equipamentos na caixinha azul semitransparente sobre o armário.

– O que você quer? – Pergunto para minha companheira de pedaladas.

– Por que você não me leva para passear? – Imagino ela respondendo.

– Trabalho… Cansaço… Desanimo… – Respondo pra mim mesmo.

– Sinto falta das nossas corridas. – Ela esbraveja comigo.

– Tá bom! Tá bom! Estou mesmo precisando desligar o piloto automático.

Vou para o meu quarto com um sorriso bobo e, balançando a cabeça em negação, confirmo minhas suspeitas. Estou enlouquecendo.

Ponho meu uniforme de ciclismo. A bermuda de lycra é bem justa e tem uma almofadinha no fundo. Parece um absorvente. É meio estranho, mas torna as pedaladas mais confortáveis. A blusa também ajuda bastante. Ela tem dois bolsos na parte de trás onde posso colocar uma garrafa de água e o celular. Não posso esquecer do capacete e das luvas.

Na cozinha pego uma banana e uma barra de cereal para enganar o estomago antes de sair.

Descer com a magrela dá um pouco de trabalho. O elevador de serviço chega, mas está cheio. O vizinho me cumprimenta e diz que vai apertar o botão do meu andar quando chegar no térreo. Com um sorriso agradeço e enquanto aguardo termino de comer a banana. Minutos depois ele volta. Empino a magrela e entro. Na garagem pego o controle do portão. É melhor sair por ali do que pelo “curralzinho” dos pedestres. Ponho o fone de ouvido, abro a playlist de ciclismo e começo o passeio.

– My body tells me no! But I won’t quit! – Canto baixinho.

Algumas nuvens enfeitam o céu azul com seu branco intenso. O ar está ligeiramente frio. Gosto disso. Me lembra Lídice. Saudades da terra natal de meu pai. Do cheiro da mata atlântica e dos sons que dela vem. Dos rios e cachoeiras de águas geladas e cristalinas. Do céu noturno estrelado como açúcar jogado sobre uma mesa de jatobá.

Depois dessa viagem nostálgica a cidade onde passei muitos carnavais, volto para Brasília e para minha pedalada vespertina. Sigo pela alameda Gravatá até a entrada do Parque Águas Claras. Com um pouco de jogo de equilíbrio passo pelo portão sem descer da magrela.

Decido fazer o percurso mais longo. Pedalo devagar aproveitando o fim de tarde. Vejo crianças brincando com seus pais. Cachorros passeando com seus donos. Um casal de idosos caminhando despretensiosamente, lado a lado, de mãos dadas. Famílias fazem pique nique sob a sombra das árvores. O parque possui muitas mangueiras e algumas pessoas aproveitam a caminhada para pegar seus frutos caídos no chão.

Pouco depois da Lagoa dos Patos, próximo ao grupo de escoteiros começa uma ladeira que, embora leve, é longa. Como não estou na melhor forma desço da magrela antes que minhas pernas comecem a doer.

Caminho ao lado da minha Monark 10 1978. Está senhora me acompanha a vinte e dois anos e dá de dez a zero em muita novinha por ai! Por onde ela passa atrai olhares. O magrelo de calça esquisita e pernas finas também chama atenção. De um jeito diferente e bisonho, mas chama.

Duzentos metros e uma ladeira depois volto a pedalar segurando firme no guidão. Magrela está tinindo! Todas as engrenagens funcionam perfeitamente. Ela parece feliz. Aumento a velocidade e sinto a adrenalina no corpo. Olho para baixo e vejo a roda girando sobre o asfalto. Me sinto como um ciclista profissional, mudando a marcha e balançando o corpo de um lado para outro enquanto corro até os eucaliptos. Seu aroma é inconfundível. O mesmo que sentia da janela do meu quarto no conjunto do Coletivo em Realengo. Aquelas árvores em frente ao campo do Basquetão pereciam gigantes para um menino de 10 anos. O passeio torna-se ainda mais agradável. Passo por eles, sigo até os bambus, viro à esquerda no portão principal e subo paralelo a avenida Parque Águas Claras. Cinco quilômetros e meio depois estamos de volta na alameda, cansados, mas satisfeitos. A magrela e eu.

Escureceu e os faróis dos carros iluminam as ruas. Pedalo mais seiscentos metros até o conjunto 8. Tiro o controle do portão da garagem da cintura e, por um breve momento, perco o equilíbrio. Driblando a senhora gravidade, evito um belo tombo. Não foi dessa vez. Já na garagem tomo um último gole de água antes de subir e desligo a playlist. O último refrão da última música ecoa na minha mente:

“I got buried
No, it won’t be long, before i rise in song!”

No apartamento agradeço a magrela pela pequena viagem e a ponho de volta no suporte da parede do escritório / quarto de hóspedes. O suor escorre pelo rosto. Um banho agora é mais que necessário. O banheiro é pequeno. Mal ligo o chuveiro e logo o espelho fica embasado. Pois é. Não gosto de frio. Com a cabeça ligeiramente inclinada para baixo e apoiada na parede deixo a água quente, quase pelando, massagear as costas e a coluna. O corpo reage imediatamente e, com os músculos relaxados, as preocupações somem por alguns instantes e algumas ideias para novos ensaios surgem. Engraçado como as melhores inspirações surgem quando estou no banheiro.

Depois do “brainstorm” no chuveiro visto um short velho e surrado e corro para a cozinha. Agora é o estomago que pede um pouco de “sustança”, como diria meu avô Enéias. Feijão não pode faltar, afinal, comida sem feijão não é comida! O arroz já está pronto e só falta o complemento. Decido por um filé de tilápia marinado no limão e temperado com curry. Simples, rápido, prático e delicioso. Em poucos minutos a refeição está pronta.

Com o prato na mão caminho até o meu lugar preferido da casa, a sala. Sento-me no sofá. Bem no meio. Não a direita para que a luz da janela e os barulhos da rua não me incomodem e nem a esquerda para que a corrente de ar que vem da cozinha e o reflexo da janela na TV não tirem minha atenção. Bem no meio. O lugar perfeito. Tv ligada e sintonizada no único canal e na única programação da TV aberta que ainda assisto: Jornal da Band. As últimas notícias do dia: corrupção, presidentes e ditadores loucos espalhados pelo mundo, guerras sem sentido, gente inocente morrendo a troco de nada. Mais do mesmo.

E quando pensamos não ter mais como piorar o ser humano nos surpreende extraindo o pior de si em demonstrações atrozes de segregação, seja por cor, origem étnica, religião, gênero, orientação sexual, condição financeira, afinidade política ou qualquer outro motivo que lhe convenha. Sempre generalizando. A condenação de muitos pelos erros de poucos.

Desligo a TV e saboreio meu peixinho na companhia dos meus pensamentos apenas. Durante alguns segundos os carros e motos não passam na rua, cachorros não latem, crianças não choram, vizinhos não andam sobre minha cabeça. Um zumbido baixo e agudo é percebido. Um silencio forte me abraça e conforta com a paz de quem está de bem consigo mesmo e com o mundo.

De buxo cheio e alma tranquila lavo a louça e guardo as panelas. O dia chegou ao fim e, antes de deitar, sento na cama e, olhando para a lua do lado de fora da janela, converso com o criador.

– Oi, Pai. Tudo bem? Quero te agradecer. Você foi demais hoje! Como sempre! Vi teu sorriso no Jorge lá no planalto. Ele é um cara legal! Cuida dele, tá!

– As fotos que o Luis fez lá no STF ficaram incríveis! Foram parar no destaque da Folhapress! Você tem uma visão top demais! Obrigado por colocar ele e dona Fernanda na minha vida. Tenho aprendido muito com eles.

– Ah… Obrigado por poder presenciar a história do meu país acontecendo, mesmo que não seja a história que eu gostaria de ver, né!

– A magrela e eu adoramos o passeio no parque. Que pôr do sol foi aquele? O sol se escondendo por trás das nuvens enquanto eu pedalava foi fenomenal! Obrigado!

– Pai, olha, sei que tem muita gente nesse mundo precisando muito mais da tua atenção que eu. Então te peço, dá uma moralzinha pra eles, vai. Você sabe… Por aqueles que não te conhecem, que não conhecem o amor, que por um motivo ou outro estão longe de ti, tristes, com os corações magoados, duros e fechados pelas dores da vida. Sei que sou falho, cheio de erros e tudo mais, mas você me conhece, né? Fico feliz em ajudar. Pode me usar como um instrumento seu.

– Ah… Pai… Dá uma olhadinha na minha família também? Tô morrendo de saudade dos meus pais, da minha irmã, da vovó… Olha também meus afilhados todos, meus primos, meus tios e meus amigos. Enfim… Cê sabe… Olha eles. Cuida deles. Dê um beijo e um abraço em cada um por mim para que saibam que os amo muito!

– Boa noite, Pai. Até amanhã.

Engraçado como nunca faço orações por mim. Sempre pelos outros. Sempre. Só me resta dormir e esperar o ciclo não reinicie no dia seguinte, com a esperança de que um mundo mais justo e amoroso desperte comigo e que minha percepção de mim mesmo seja menos crítica para que, na minha pequenez, possa fazer alguma diferença na construção de uma sociedade melhor.

Fim