Primeira parada. Estaciono o carro ao lado da “casa do povo” e caminho uns duzentos metros até o local de trabalho do “presidente sem medo”. Dia de evento sempre tem muita gente aqui. A bancada da assessoria de imprensa já está montada. Jorge me vê de longe e já separa a credencial diária. Chego perto e ele estende a mão para me cumprimentar.
– Bom dia, amigo!
Jorge é um senhor de cabelos grisalhos muito simpático e prestativo. Ele, com todo o profissionalismo de quem sabe dar valor ao trabalho dos repórteres fotográficos, cinegrafistas e jornalistas diz:
– Envia logo a documentação que te pedi, cara! Quanto antes você me enviar mais rápido posso providenciar a credencial anual pra você! Daí não vai mais precisar parar aqui!
Enquanto assino a autorização de acesso respondo sorrindo pra ele:
– Poxa… Vou perder minha coleção de credencial!
Rimos juntos por uns segundos enquanto ele me entrega uma das últimas credenciais diárias que precisarei solicitar nesse final de ano.
– Bom trabalho, amigo – ele responde.
Pego a credencial, agradeço com o sorriso e um aperto de mão, desejo um bom dia de trabalho para ele também e caminho até os detectores de metal e raio x.
Tenho que tirar meu já surrado blazer para entrar. Procedimento padrão. Passei por isso algumas vezes sem problemas. Os seguranças já sabem que quando apita é a chave do carro no bolso ou algum dos meus equipamentos. Dessa vez não fui parado. Entro e dou a volta no saguão. Sigo pelo corredor lateral até as escadas e subo para o segundo andar onde normalmente acontecem os eventos. Hoje será no salão leste.
Cheguei cedo e posso escolher meu lugar na escadinha dos fotógrafos. Como não sou alto e minha tele não é de 600mm como o da maioria aqui fico no último degrau o mais próximo possível do meio. A câmera já está com a 70-200mm. Faço um clique para medir a luz. Ajusto o ISO para 3200, velocidade em 250, abertura em 4 para ter uma boa profundidade de campo, balanço de branco em 4100k e pronto! Preparado para disparar!
Aos poucos as pessoas vão chegando. Políticos de todos os tipos, formas e tamanhos, assessores, figuras públicas e alguns artistas também. Os jornalistas sentados na área reservada a imprensa com seus notebooks no colo digitam sem parar. Cinegrafistas montam suas câmeras e apontam para o palco onde ocorrerá o “show”. Colegas fotógrafos também começam a chegar e se posicionar na escadinha.
– Quanto deu seu balanço de branco, camarada? – pergunta Luis.
– 4100k no painel do lado esquerdo. – Respondo pro amigo fotografo.
Poucos minutos depois o cerimonialista anuncia o início do “show”. O “presidente sem medo” entra com seus assessores e as câmeras disparam. O som assemelha-se a metralhadoras num campo de batalha. Todos na guerra em busca do melhor ângulo, a melhor foto, aquela que será vendida por um bom preço e que garantirá o pão de cada dia.
A manhã passa e o evento termina. Caminho junto a parede de espelhos que leva a escada. Uma breve pausa e uma olhadela. A sombra de um ser humano qualquer se opõe aos guardas parados como estátuas sob o céu azul do planalto central. Desço lentamente em direção ao corredor que leva a sala de imprensa. Ao lado, numa sala menor, concentram-se os fotógrafos. Lugar apertado, quente, com um sinal de internet, muitas vezes, vacilante, mas ainda assim disputado. Não estou com vontade de socializar. Passo direto e chego ao saguão. Uma bancada grande de mármore estende-se quase dos elevadores até o hall dos presidentes. Este é o meu “escritório”. Sento-me numa das cadeiras, tiro o notebook da mochila, ponho em cima do balcão e ligo. Baixo, seleciono, edito e envio as melhores fotos para a agencia enquanto observo o vai e vem de pessoas próximo à entrada.
Uns vem apenas para os eventos. Outros para reuniões. A maioria a trabalho. Mas todos admiram a arquitetura do lugar, que é linda, diga-se de passagem.
Terminado o trabalho parto para o segundo round da luta diária.
